domingo, 7 de dezembro de 2008

Nova era

Não sei qual o pecado que cometi.
Dou aos homens um sentido para suas vidas,
beleza para este mundo
e no entanto, fazem-me prisioneiro.
Prisioneiro de seus peitos que me obrigam a bater calado.
Por isso, peço ao silêncio para ser meu testemunho.
Escuta então, silêncio, o meu desabafo:

Sofro da doença mais bela deste mundo: vontade de viver.
quero voar,
quero sorrir sem motivo
e gritar sem medo "eu te amo!",
mas não posso,
porque o peito dos homens me abafa
abafa meus sonhos
e cada palpitada que dou morre no anonimato.

Não sou coração,
sou esquecimento no mundo dos homens.
Amo, mas não me ouvem!
e não me deixam amar...

Mas eu sou forte,
esquecem-se que a minha doença chama-se vontade de viver!
Por isso, infinito como todos os sonhos que guardo dentro de mim,
faço uso de cada infinita felicidade que eles carregam
para invocar a explosão do peito que me prende!
E esse peito, esse peito não é feito de carne e osso
ele é feito de mesquinhez, egoísmo, falsidade, raiva;
de pessoas que esqueceram o que é amar.

Agora que estou livre, abandono a minha condição de mudez
e peço à indiferença o silêncio que ela sempre me negou.
Ouça o que o cárcere cultivou em mim:

A partir deste instante
torno os segundos santos!
Nunca mais eles morrerão sem terem sido notados
A partir deste instante
peço aos olhos a onipresença da beleza
e proibo os namorados de não beijarem as testas de seus
[companheiros
A partir deste instante
proclamo o sorriso como uma linguagem universal
e declaro que uma nova era começa,
a era dos corações livres.

É o novo peito que se forma,
que deixa a condição de aperto para sentir-se aquecido,
pois o coração pode finalmente bater,
bater não só por um, mas pelo mundo inteiro.
porque após a prisão, a liberdade se torna mais livre.

Dedico esse "blá blá blá" a todos que me apoiaram em tempos difíceis. Em especial a minha família e o pessoal do Centro Universitário do Sumaré.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O dia em que descobri o infinito

Hoje descobri que o infinito mora dentro de mim
De uma forma triste, mas descobri...
Descobri que só me movo porque ele existe,
que só me sinto porque ele existe
que só me chamo Rodrigo porque ele existe...

Mas no fundo, descobri também que ele existe porque eu existo
[também

Acho que,
O infinito é como o meu coração.
Ele bate
não sei se para mim, mas ele bate.
24 horas por dia, sem saber porque, mas ele bate
e graças a isso estou vivo

O infinito também.
Sua presença me fornece tudo que me compõe:
Ele me dá vontade de viver,
sentimentos,
e transforma o olhar em compreensão,
sem nem saber que o faz

Ah...
Descobri hoje que para se apaixonar basta existir!
que para se ter amigos basta colecionar momentos e guardá-los
[em um álbum de fotos
que para sonhar basta ter um coração que bate

Mas hoje eu também descobri que para chorar basta se apaixonar
que para sentir a solidão basta ter amigos
que para se decepcionar basta sonhar
Descobri que basta vivermos...
e que no infinito, alegria e tristeza não existem,
Rodrigo e pueira são as mesmas coisas
que no infinito, nada tudo é
porque é no infinito onde a vida se reproduz.

Hoje eu descobri o infito porque perdi alguém que amo
perdi para que o infinito me trouxesse ela devolta
e abrir denovo meu coração
Porque ele é infinito!

sábado, 8 de novembro de 2008

Sacrifício

Hoje fui esfaqueado pela incerteza,
pela cegueira de meus passos

A lâmina corre,
corre guiada pela fragilidade de meu corpo
a procura de algo sólido

É a incompreensão que a faca quer
É a ingratidão que o seu gume procura,
Não o grito de dor
Mas a serenidade do imaculado
A solidez do diamante que a vida colocou dentro de mim


E no silêncio que antecede o brilho no olhar
é possível ler:
"Turvos são nossos olhos"
escrito em sangue para os tolos
em vermelho púrpura para os anjos

sábado, 11 de outubro de 2008

King Crimson - Starless

Bom, acho que para a mioria do pessoal que frequenta o blog, não estarei sugerindo nenhuma banda nova. Entretanto, espero ao menos chamar a atenção para uma música particular deles, sem dúvida uma das mais belas músicas que já ouvi! "Starless"
Confesso que demorei para entender a música... é o tipo de música que não é para ser ouvida, é para ser entendida. Para mim, a música tenta fazer uma limpeza; nos coloca de frente com agonia, remorso, amores não correspondidos, tudo! Para depois explodi-los, mandá-los à merda e dizer: a vida é muito maior do que essas coisas.
Indescritível...

Boomp3.com

Discografia:

http://users.utu.fi/petolo/crimson.html

Descrição da banda segundo a Wikipedia:

Os King Crimson são um grupo musical inglês formado pelo guitarrista Robert Fripp e pelo baterista Michael Giles em 1969. O estilo musical da banda costuma ser categorizado como rock progressivo, mas a sua sonoridade carrega vários estilos, como jazz, música erudita, new wave, heavy metal e folk.

O nome King Crimson foi sugerido por Peter Sinfield, sendo um sinónimo de Belzebu, princípe dos demónios. De acordo com Fripp, Belzebu seria uma forma ocidentalizada da frase árabe "B'il Sabab.", significando "o homem com um objectivo", apesar de muitos sugerirem que a palavra vêm do hebraíco Ba'al-z'bub, "senhor das moscas".

Uma parte considerável da história dos Crimson consiste nas várias mudanças que foram ocorrendo na banda ao longo dos anos, sendo Robert Fripp o único elemento consistente do grupo, embora ele diga que não se considera o líder, e que para ele os King Crimson são “uma forma de fazer coisas”,[1] e a consistência musical que tem persistido ao longo da história da banda, apesar da rotação dos seus membros, demonstra bem este ponto de vista.

Passarinho

Todos os dias um passarinho vinha a minha janela e cantava.
Cantava a mesma música e depois ia embora.

Passei muito tempo sem entendê-lo.
Perdoe-me, passarinho
era a rotina que engolia a sua canção
e eu não percebia,
mas mesmo assim você retornava ritualisticamente
como se tivesse algo muito importante para me dizer,
como se eu fosse seu propósito de vida
e eu não percebia

Passarinho querido, perdoe-me por nunca antes ter te escutado!
Obrigado por ter acreditado em mim,
por ter insistido em mim,

Obrigado por me mostrar que o dia NASCE
por me trazer sempre uma nova música, mesmo sabendo que eu não
[percebia isso
por ter me amado como ninguém jamais me amou!

Você era o parteiro de cada manhã
Pai da existência que se renova
e eu não percebia...
Não percebia como a vida é virgem a cada segundo!





Todos os dias ainda olho para a janela.
Mas o passarinho nunca mais voltou
Acho que existem muitos Rodrigos pelo mundo que ainda não sabem
[escutar suas músicas
por isso você partiu,
porque você ama todos eles...

Passarinho!

...

obrigado

sábado, 4 de outubro de 2008

Borghesi e o niilismo otimista

Hoje fui a uma palestra do filósofo italiano Massimo Borghesi, promovida pelo IFE (o meu muito obrigado ao Julio pelo convite). Não consegui compreender tudo, até porque não tenho a mínima noção de italiano, mas o esforço que Borghesi fez para falar um italiano espanholizado valeu a pena. Do pouco que entendi, saiu esse texto:

Borghesi identificou de uma maneira espetacular o problema depressivo do homem moderno: o niilismo otimista, como ele chamou.

Para niilismo otimista o mundo em si não possui objetivo; até ai nada de novo, mas o que ele identificou perfeitamente foi a substituição dessa falta de objetivo por um mundo ilusório, capaz de confortar o homem moderno da angústia que advém dessa carência. Todo o significado de vida passa então a ser subjetivo e é dada bandeira branca para o ego subir ao palanque e gritar: "sou capaz de guiar a mim mesmo. Meu objetivo de vida é meu e o mundo nada tem a ver com isso".

Nunca antes foi tão cômodo pensar dessa forma como nos dias de hoje. Vivemos repletos de tecnologias capazes de criar essa pseudo realidade confortável o suficiente para sustentar esse triste modo de pensar. Particularmente, acho que a trilogia Matrix faz uma ótima comparação com o niilismo otimista. Trocamos o objetivo de vida, que Neo após despertar teve que carregar, pelo comodismo da parafernalha tecnológica moderna, os prazeres de matrix. Da mesma forma que no filme, as pessoas simplesmente ignoram a existência de um sentido de vida e acomodam-se neste mundo que a burguesia é capaz de sustentar. Eis o porquê de nossos ícones estarem limitados a grandes executivos bilhonários e artistas que levam uma vida de carpe diem perfeita. É a falta de para onde caminhar! E no cenário dessa falta nos afogamos em comodismos que, pela própria natureza vã do fim neles mesmos, trás a angústia do homem moderno. Somos carentes de ícones, de motivos, de pés que saibam para onde andar. Sofremos e não sabemos o motivo, ou melhor, ignoramos os motivos, até que 50 anos de nossas vidas passem e percebamos a falsa realidade que criamos ao nosso redor e a sua capacidade limitada de nos fornecer apenas falsa felicidade.

Trois Couleurs Bleu



Parte da trilogia das três cores do grande mestre Kieślowski, um dos meus diretores preferidos. Em cada filme há uma cor diferente, que domina as cenas e nos transmiti um sentimento distinto. Amo todos os três filmes, mas o azul acredito ser o mais belo. É a estória de uma mulher que perde sua filha e seu marido em um acidente de carro e como ela lida com esse sentimento de angústia e perda. Basicamente, ela precisa reaprender a amar.
A belíssima trilha sonora pertence a outro mestre: Zbigniew Preisner.

Emilio Locurcio

Junto com o Banco, Emilio Locurcio é referência do Prog Rock italiano. O impressionante é que ele alcançou esse status através de um único album lançado: "L'eliogabalo - Operetta iperrealista".
O album possui cinco faixas, duas delas com uma duração média de 12 e 15 min. Emilio extrai música da sonoridade do idioma italiano, o que, na minha opinião, fez melhor do que qualquer outra banda italiana.
Aqui vai o primeiro trecho da faixa "La veglia".

domingo, 21 de setembro de 2008

O sabor dos morangos

No caminho da vida eu ando,
supostamente ando. Procurando o sentido das pedras que carrego em meus sapatos, procurando o sentido do sol que brilha lá no alto e me diz que sou diferente da poeira que junto no meu casaco abarrotado. Sim, sou diferente, sou poeira cósmica consciente; almaldiçoada ou santificada com a capacidade de perceber-se a si mesma.
Anos-luzes de vagos olhares. Vagos diante do infinito, mas repletos de vontade, de sede para enchê-los novamente e terem o direito de brilharem. De enxergar em cada ramo retorcido a vontade de viver

Explodo em agonia e contemplação...
Sou pequeno mas vivo! Vivo e sei que vivo.
Não sei o que o momento representa para a beleza, mas ela está lá, pequena e gigantesca ao mesmo tempo. É o paradoxo do objetivo sem fim, do caminho fim em si mesmo, do ego que sabe-se inexistente.
Os morangos têm gosto, mas não sabem disso.
Eu não tenho gosto, mas sei que os morangos têm gosto; não para mim, mas porque eles brilham também.
Onde está o meu gosto? Dissolvido no paladar que o procura. Atrás da pedra no sapato que me cutuca e me lembra que também existo.
Sou você, morango! Meu gosto está contigo.
Sou você, pedra! Minha insignificância está contigo.
Sou você, universo! Estou contigo.

Acordar a cada dia e, sem saber porque, desfrutar o motivo que tudo permeia. Lutar para defendê-lo, abraçar o infinito que nos esmaga e dizer: "eu te amo!"

"Clara manhã, obrigado. O Essencial é viver"




Um muito obrigado ao meu amigo Henrique Elfes

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Quero fazer um minuto de silêncio...

Não pelas crianças famintas na África,
Ou por um Tibet livre,
Ou pela barata que matei hoje de manhã

Apenas quero um pouco de silêncio,
Um egoísta minuto de silêncio!
Elevar minha mediocre indiferença ao máximo
esquecer o mundo
e fazer um minuto de silêncio por mim...

permitir-me sofrer sem culpa,
mandar tudo à merda e continuar imaculado

um único minuto
convertido em 2000 anos de história, agora esquecida
violentada por mim com um único mesquinho e tentador objetivo:
abandonar a sua memória
na solidão desse momento...


Li o comment do meu grande amigo Guto e sentime-me tentado a mexer no que chamei de "e o vento levou". Ao tentar reeditar o texto, pude notar como o momento molda as palavras. O que faço nos tópicos "Blá blá blá's" é apenas tentar transmitir oq estou sentindo a cada dia. Não somos agendas de hormônios que estaõ programadas para serem felizes na segunda, tristes na terça, rizonhas na quarta, etc. Somos um aglomerados de fatos que convergem para um sentimento diferente a cada segundo. Triste aqueles que não percebem isso e passam a vida inteira buscando apenas a "divina felicidade". Pobres pq nunca a alcançarão de fato....

Guto, um abraço.

Àqueles cujo nome não me lembro.

Quer pisar em mim?
Pise
Mas pise direito

Transforme-me em cacos,
Meus cacos em migalhas,
Minhas migalhas em pó

Porque deles tiro a minha força
Colo, junto, reergo-me

Para oferecer-lhe a outra face?
Não!
Para apagar a sua existência
com um sorriso de desprezo.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

E o vento levou

Quero fazer um minuto de silêncio...

Não, nada de mal aconteceu
Apenas quero um pouco de silêncio,

e fazer dele uma chance,
abandonar a sua memória
na solidão desse momento

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Hoje, enquanto ia comprar a janta do dia, enfrentei um grande dilema:

Logo na entrada do supermercado um maço de cenouras sem agrotóxicos chamou-me ao canto e disse: "coma cenoura, faz bem para a pele e para os olhos"
mas não demorou muito para o Couple Noodles revidar; deu um berro lá da sessão onde fica o povo industrializado: "mas eu demoro só três minutos pra ficar pronto!"

E agente dizendo que sabe bem pra onde vai...
Desmentidos por uma prateleira de supermercado!

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Koenjihyakkei



A banda japonesa Koenjihyakkei possui um rock caótico (gênero chamado "zeuhl") esbanjando no vocal peculiar e no inusitado. É o mesmo estilo que a banda francesa "Magma" segue (tem um post aqui sobre eles). Acho eles geniais e o baterista arrasa!
Não é uma música muito "digestiva" para a maioria, mas espero uma mente aberta por parte daqueles que ainda não o conhecem.

"I'm probably going out on a limb here, but from my vantage point, this is not only the most brilliant of all of contemporary Japanese bands, but perhaps the greatest group currently operating in the world." -Alternative Press




sábado, 26 de julho de 2008

Divina atrocidade

Minhas pálpebras?
Cortei-as fora
para que a vida nunca mais se esconda de mim

sim,
eternalizei cada um de seus belos segundos....
e o que me sobraram foram apenas lágrimas
para poder chorar por eles

domingo, 6 de julho de 2008

O amor como caminho de vida


Sempre pensei que o amor fosse o guia definitivo do homem, aquilo que nos leva ao que é necessariamente bom - aqui, o amor não se restringe apenas à relação homem-mulher, que fique claro. Há vários motivos para isso; podemos ir desde aqueles com um sentido mais metafísico até os construídos de forma lógica. Entretanto, veremos mais à frente que ambos são erguidos em suposições falsas.


Ao lembrar que se chegamos a Deus (ou a qualquer outro Fim cujo nome varia de acordo com a religião) através do amor, então basta ter confiança naquilo que nosso coração diz, numa linguagem um pouco romântica, e nosso caminho estará correto. O mesmo se aplica à lógica de que uma pessoa não amará aquilo que a prejudica e, portanto, o que não é bom. Generalizando: amar é buscar a Verdade, correto? Parcialmente.

O responsável por essa falsa conclusão é supor que o amor é único. Na verdade, existem vários tipos de amor e é em apenas um deles que podemos fundamentar o nosso caminho de vida. Para se perceber isso basta olhar para os presídios. As pessoas que ali estão não praticaram boas ações, mas nem por isso podemos dizer que não amam. Podemos, isso sim, dizer que não amam verdadeiramente.


Para entender melhor o porquê disso é preciso perceber que se algo é de fato bom ele o deve ser para todos. Assim, o amor se divide entre o universal (verdadeiro) e o individual (falso).


A história está repleta de exemplos. O Nazismo é um dos maiores. Certamente Hitler não era um ser único que não amava, mas sim alguém com uma noção errada do que é amar. A raça germânica era a única que merecia seus olhos, todas as demais deveriam sofrer as conseqüências desse monofoco; uma visão jamais universal e, portanto, descomprometida com o que é Verdadeiro. Os resultados falam por si.


O grande problema que vejo é que, mesmo com tantos fatos que clamam pelo nosso aprendizado, continuamos a agir de forma não universal, ou egocêntrica para ser mais simplista. Vivemos em uma sociedade tarada pelo umbigo; desde crianças a motivação está em provar para todos que somos/seremos o orgulho encarnado. A felicidade depende do status, o caminho de vida está no status e o falso amar nunca antes pareceu tão verdadeiro. Resultado: o que vemos infelizmente não são pessoas plenas, mas asilos deprês, quarentões com a famosa crise do "agora não tem volta" e grandes referências de felicidade terminando suas carreiras no suicídio. Não é pessimismo, são fatos.


Assim, proponho trocarmos o atual caminho de vida baseado em sermos alguém por um outro baseado no tornar todos alguém; trocar o amor falso pelo verdadeiro, universal. E dessa forma transformar a história numa exposição de fatos que tragam orgulho à humanidade.

Termino com um trecho bíblico: 1 Coríntios 13

"A excelência do amor

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como o sino que soa, ou como o símbalo que retine. Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência. mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, não sou nada. Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada valeria!
O amor é paciente, o amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante. Nem escandaloso. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê tudo suporta.
O amor jamais acabará. As profecias desaparecerão, o dom das línguas cessará, o dom da ciência findará. A nossa ciência é parcial, a nossa profecia é imperfeita. Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá."

sábado, 28 de junho de 2008

Infanticídio

Tenho olhos,
mas não vejo
sentimentos,
mas não choro
pensamentos,
mas não falo

O passo em falso já não tropeça
O abraço não conforta
e as pernas desistiram de levantar-se

O gozo secou
e o coração apenas bate, indiferente

São supostas lembranças
do beijo na testa que nunca aconteceu
dos lábios que nunca foram úmidos
da maõ que balança no vazio

É a sede que cansou de esperar
morta sem nunca ter sido saciada

Klopka - The Trap




É possível mensurar a vida de alguém? Tratá-la como um produto comerciável? São as perguntas que o protagonista se faz na tentativa de salvar seu filho.
Tema bombástico e o diretor Srdan Golubovic fez justiça a ele.

Huun-Huur-Tu



Grupo de Tuva, uma nação na Sibéria e a noroeste da Mongólia.

A música que se segue é uma das mais belas do grupo e faz parte do álbum que leva o seu nome: "The Orphan's Lament"


site do grupo: http://www.huunhuurtu.com/

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Mudez claustrofóbica

Sou um maestro
procurando a melodia neste mundo instrumento
para um universo surdo

sou aquele amor mais secreto e puro
que morre no anonimato

a flor valente de Drummond
despedaçada no asfalto

as palavras, as línguas
com 500 mil anos de história
mudas diante dos sentimentos

sou a insignificância,
o homem diante da VIDA!
o feto no útero materno,
incapaz...

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Edu e Tom



Uma bela música num belo álbum: Luiza - EDU & TOM

Sempre que escuto, bato palmas àqueles que insistem num romantismo que hoje foi trocado pelo vulgarismo erótico. As letras são de Tom Jobim, com participação especial (e põe especial nisso) de Edu Lobo.

Uma poesia musicada...






E, na minha opinião, a melhor música do álbum: vento bravo. Aqui vai o making of da gravação, vale a pena assistir:
(Música original de Edu Lobo)

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Paradoxo

O que sinto já não cabe no meu peito,
não cabe em palavra qualquer

Limito-me a encarar o silêncio
e dessa ausência me faço entender

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Xerox

Quero um rosto, uma identidade
quero me ter em intensidade
digo ao meu reflexo no espelho

e o que vejo é apenas mais uma cópia,
cópia da cópia
de Marilyn Monroe
de Marlon Brando
tomando coca-cola
e com aquela cópia de sorriso no rosto.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Evgeny Igorevich Kissin



Aqui vai a minha homenagem ao grande pianista russo Evgeny Igorevich Kissin, ou apenas Kissin. O concerto se passa em um teatro de Moscou. Nesse evento, mesmo tendo sido encerrado há muito tempo, o público o fez voltar ao palco dezenas de vezes. Para quem quiser ver esse vai e vém, assista o documentário "The gift of music", no qual o próprio Kissin faz seus comentários sobre o concerto e sobre a sua dedica trajetória musical.
Kissin é respeitado mundialmente e valorizado pela clareza e pela limpeza de cada uma de suas notas, fruto de muito treino, esforço e paixão pela música.
Ele toca "La Campanella" de Paganini. Aproveitem:

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Plenitude




O ser humano tem a bela habilidade de alterar o mundo que o circunda; um alterar bem mais profundo do que o apenas físico: ele altera o mundo em beleza, em vivência. Somos movidos pelo que chamamos de amor e com ele movemos tudo ao nosso redor. Norteados por esse sentimento, realizamos diariamente diversas tarefas que procuram melhorar nossas vidas.

Acho isso muito bonito, mas não posso deixar de observar que, mesmo diante de tantas belas obras feitas pelo homem, no fundo não sabemos amar verdadeiramente."Amo-te não por quem és, mas sim por quem sou quando estou contigo", disse Gabriel José Garcia Marquez. Vejo nessas palavras o erro que temos cometido: o modo como amamos busca antes de tudo a felicidade pessoal e todos os belos resultados que disso conquistamos não passam de simples conseqüências. Acredito que houve uma inversão na ordem desses acontecimentos, o grande responsável pelo falso sentido de vida na busca insaciável por serotonina e cia.

Os gregos já haviam percebido essa falha quando enquadraram o amor verdadeiro na procura do belo (no sentido amplo que eles desenvolveram), do bom. Mas eu me arrisco a ir além, em dizer que amar verdadeiramente é compreender a dualidade que rege nossas vidas. Perceber que se existe o sofrimento é para que a alegria também possa existir, se existe o mal é para que o bem também exista e assim por diante. É respeitar essa Lei e aceitá-la, é dizer "em tudo dai graças", lutar para defender a vida que se exprime em cada canto do desejável e do indesejável. Nas palavras de Fernando Pessoa, é perceber a insolidez do que temos por bom ou por mau, como o Tejo que é o "mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia". É captar o brilho constante que tudo emana e agir não em prol da conseqüência, mas do objetivo que é viver e defender toda essa vida.
O resultado disso é uma felicidade a qual quero dar um outro nome: plenitude.

domingo, 27 de abril de 2008

Elysian Fields



Depois de ouvir "Elysian Fields", senti que os pubs ganharam uma nova existência, como se eles tivessem nascido antes para suas músicas do que elas para os climas solitários dos pubs. O fato é que Jennifer Charles, a dona dessa super voz, encarna um papel de anjo da guarda para os desamparados da noite...


Quem não tem vontade de assisti-los em meio a uma luz entrecortada? Irresistível....


Dêem uma olhada na introdução do site deles, ela fala por si:


"Another empty night playing for drunken fools. He wandered down the dusty stairs, down to the basement of the squalid club on East Houston Street. There she was. The little match girl, in a torn vintage eyelet dress with a black velvet bow. An old splintery broom in her hands. He must have heard that voice first, smokey, like warm honey. She was singing some forgotten song from the 1920s, as she dreamily and ineffectively tried to sweep the floor. He stood and watched her, this little anachronistic siren, as he cravenly sucked up the poison of yet another cigarette. Little did they know, but this was the beginning of a beautiful friendship. "



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http://www.elysianmusic.com/

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Across the universe

Nunca fui muito chegado em musicais, mas como tudo, sempre é possível encontrar uma exceção. "Across the universe" foi realmente uma surpresa para mim. Estava esperando de fato um filme diferente, com um belo figurino, mas com uma estorinha sem grandes revelações. Entretanto, como todo bom filme, ele me surpreendeu. O que vi foram letras belíssimas aliadas a um "concept art" genial. Essa união, abordando o tema do amor - visto por diversos ângulos, culmina em uma mensagem do tipo "life is beaultiful". Para aqueles que já assistiram "O fabuloso destino de Amelie Poulain", é um sentimento muito parecido. Sem dúvida é um filme capaz de transformar qualquer domingo chuvoso em uma bela manhã ensolarada de sábado.


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domingo, 13 de abril de 2008

Io Non Ho Paura



Dirigido pelo italiano Gabriele Salvatores, o filme traz o cinema em toda a sua potência: fotografia primordial, ótimo roteiro e uma fantástica trilha sonora de Michael Galasso para fechar com chave de ouro. Dispensa uma sinopse...


http://www.imdb.com/title/tt0326977/


trailer:



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A Perfect Circle



Para colocar um pouquinho de rock por aqui, "A Perfect Circle (often referred to as APC) is an alternative rock supergroup formed by guitarist Billy Howerdel. Howerdel had worked as a guitar tech for bands such as Nine Inch Nails, The Smashing Pumpkins, Fishbone and Tool. He played demos of his music to Tool's singer, Maynard James Keenan, who offered himself as vocalist should Howerdel ever form a band. Although initially hesitant about this, as he originally wanted a female vocalist, Howerdel eventually agreed and A Perfect Circle was formed in 1999. To distinguish himself from his persona with Tool, Keenan wore long wigs on his otherwise bald scalp for all of A Perfect Circle's music videos, photo shoots and live performances."




Judith, do ábum Mer de Noms


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Redenção

Este mundo não está abandonado ao acaso, disso podemos ter a maior certeza a cada nova descoberta da ciência. Vivemos em meio a causas e efeitos. Causas e efeitos que, para muitos, acabam por se tornar uma prisão, um destino incontornável.

Diante disso, as religiões nos trazem diversos caminhos para a conquista da liberdade, como a vida após a morte e a fuga do círculo de reencarnação e morte. Mas onde entramos nesse processo? Qual é a capacidade que temos para mudar esse destino incontornável?

Na busca pela resposta, achei muito pertinente um trecho do livro "Sidarta" de Hermann Hesse. Ele faz parte de um diálogo entre Sidarta e Buda:

"Nessa doutrina, tudo fica completamente claro. Tudo é demonstrado. Tu mostras o mundo sob a forma de uma corrente perfeita, jamais e nenhures interrompida, corrente eterna, constituída de causas e efeitos. Nunca, em parte alguma, isso se percebeu com tamanha nitidez, nem tampouco foi exposto tão irrefutavelmente. Realmente, os corações de todos os brâmanes deverão vibrar de alegria, quando seus olhos enxergarem o cosmo através de tua doutrina, esse cosmo que forma um conjunto inteiriço, sem lacunas, límpido como cristal, não dependente nem do acaso nem dos deuses. Se o mundo é bom ou mau, se a vida em seus confins é sofrimento ou prazer, essa pergunta pode permanecer sem resposta. Pode ser que aquilo tenha pouca importância. Mas a unidade do mundo, o nexo existente entre todos os acontecimentos, o fato de todas as coisas, tanto as grandes como as pequenas, estarem incluídas no mesmo decorrer, na mesma lei das causas, do devir e do morrer - tudo isso, ó Augusto, ressalta luminosamnte na tua excelsa doutrina. Mas, nessa mesma doutrina, há um único lugar em que tal unidade e lógica das coisas estejam interrompidas. Por uma minúscula lacuna penetra na unidade desse mundo um elemento estranho, novo, que antes não existiu, que não pode ser mostrado nem comprovado. Refiro-me à tua tese acerca da possibilidade de superarmos o mundo e alcançarmos a redenção. Ora, essa pequníssima lacuna, essa pobrechazinha, basta para destruir e liquidar toda a unidade e eternidade da lei cósmica."

Se o mundo é de tal forma constituído por causas e efeitos, quem somos para, por nós mesmos, por nossas próprias ações, mudarmos toda essa lei universal para, assim, "superarmos o mundo e alcançarmos a redenção"? Para mim, uma vez evidenciado esse paradoxo, resta-nos apenas duas opções: ou negamos a ordem do universo, colocando-o numa espécie de anarquismo cosmológico onde o homem, pela sua capacidade racional, pode ordená-lo; ou então baixamos nossas pequenas cabeças e, com humildade, reconhecemos que a conquista dessa liberdade cabe ao arbítrio de Outrem.

domingo, 30 de março de 2008

Röyksopp






Para o pessoal que vê na música eletrônica muito mais do que ambiente de balada.

Confiram o capricho no video clip...

Röyksopp is an electronic music duo based in Tromsø, Norway composed of Torbjørn Brundtland and Svein Berge. The group formed officially in 1998 and released their debut album Melody A.M. in 2001.

The word Röyksopp is a stylized version of the Norwegian word for the puffball mushroom, "røyksopp" or literally, "smoke mushroom". This same word can also be used to describe the mushroom clouds that come from atomic bombs, so this imagery is also inherent in their name.

http://www.royksopp.com/





video



Poor Leno, do álbum Melody A.M

Perda do sentido da forma



Assisti a um espetáculo de dança japonesa que segue um estilo bem singular chamado "Butoh". A apresentação ilustrou muito bem o que o filósofo italiano Giovanni Reale chamou de "perda do sentido da forma" . Para compreender o que isso significa, tentarei explicar brevemente o é o Butoh: é uma tentiva de colocar o dançarino em contato com a sua origem, deixando que o corpo ganhe total liberdade sobre a mente e se responsabilize por esse retrocesso. "It is a dance that has as much to do with meditation or martial art training as it does to dance in the conventional sense. It derives its power from what the individual who dances it brings to it in a very mental as well as physical sense. It is a directing of energy to the audience from the surroundings, the environment and the audience themselves as much as from the mind in a way similar to how a pastry chef uses a paper cone to direct the icing onto a cake." Para finalizar o entendimento do Butoh, segue abaixo algumas apresentações.



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http://www.youtube.com/watch?v=r4sDp_1brFg&feature=related


Fica claro que os dançarinos se reduzem a apenas corpo; a consciência e mesmo a emotividade deles estão muito distantes do palco. Para mensurar esta distância, é interessante citar a influência que um estudo sobre os movimentos que uma "galinha" realizava após ter sido decepada tem sobre a dança. Diante disso, surge a "perda do sentido da forma" que Giovanni Reale comentou em seu livro"O Saber dos Antigos - Terapia para os dias atuais". Para ele, a forma não passa de um reflexo do que o interior dos objetos reserva, ela não existe por si, não caminha por si, não tem significado se não o de refletir a verdadeira beleza. E lembra que, disso, Platão já tinha plena consciência quando escreveu que "a beleza física representa apenas o grau mais exterior e mais baixo da própria beleza. A verdadeira beleza é a interior (...) a verdadeira beleza, a divina, não está no cormpo mas na alma, e é esta que é realmente preciosa".

Mas não é só a arte que tem abandonado o sentido da forma, através do distanciamento das idéias aos objetos pela super valorização da abstração; mas também a própria visão de amor. Não que seja errado amar aquilo que é belo exteriormente; aliás, deve-se buscar essa qualidade pois ela também faz parte do que é plenamente belo, mas, justamente, quando amamos buscamos essa beleza completa, que parece ter sido esquecida. Basta assistir a uns 15 minutos de novela para se evidenciar isso.Para mim, a perda do sentido da forma na arte é apena a pontinha do iceberg do falso amar.

Maiores informações sobre o Butoh:

http://www.butoh.net/

http://www.ne.jp/asahi/butoh/itto/butoh-e.htm

domingo, 9 de março de 2008

Philip Glass



"The new musical style that Glass was evolving was eventually dubbed “minimalism.” Glass himself never liked the term and preferred to speak of himself as a composer of “music with repetitive structures.” Much of his early work was based on the extended reiteration of brief, elegant melodic fragments that wove in and out of an aural tapestry. Or, to put it another way, it immersed a listener in a sort of sonic weather that twists, turns, surrounds, develops."


Não será o último post que faço dele. Enjoy:



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site oficial: http://www.philipglass.com/

Peter & The Wolf


Ganhador do Oscar de melhor curta de animação, dos diretores Suzie Templeton e Hugh Welchman. O curta preserva obviamente a clássica trilha sonora e, junto com a magia que a animação em stop motion sempre traz, ajudou a eternalizar mais uma vez a fábula (como o próprio Welchman bem observou dizendo que a premiação manterá os personagens do curta "no coração das crianças").

O curta tem cerca de 30 minutos. Aí vão os links para quem quiser vê-lo no youtube:






2ª parte: http://www.youtube.com/watch?v=2o6jJ2ICoEw&feature=related



3ª parte: http://www.youtube.com/watch?v=alhZqE-5pHs&feature=related





O gosto do vivo



Qual o gosto do vivo? Para descobrirmos, precisamos saber adivinhar a realidade, enxergando além dos olhos e cultivando a fome maior:


"Não é para nós que o leite da vaca brota, mas nós o bebemos. A flor não foi feita para ser olhada por nós nem para que sintamos o seu cheiro, e nós a olhamos e cheiramos. A Via-Láctea não existe para que saibamos da existência dela, mas nós sabemos. E nós sabemos Deus. E o que precisamos Dele extraímos. (Não sei o que chamo de Deus, mas assim pode ser chamado.) Se só sanbemos muito pouco de Deus, é porque precisamos pouco: só temos Dele o que fatalmente nos basta. Só temos de Deus o que cabe em nós mesmos que não somos bastante. Sentimos falta de nossa grandeza impossível - minha atualidade inalcançável é o meu paraíso perdido.


Sofremos por ter tão pouca fome, embora nossa pequena fome já dê para sentirmos uma profunda falta do prazer que teriámos se fôssemos de fome maior. O leite a gente só bebe o quanto basta ao corpo, e da flor só vemos até onde vão os olhos e a sua saciedade rasa. Quanto mais precisarmos, mais Deus exite. Quanto mais pudermos, mais Deus teremos.

(...)

Se abandono a esperança, estou celebrando a minha carência, e esta é a maior gravidade do viver. E, porque assumi a falta, então a vida está à mão. Muitos foram os que abandonaram tudo o que tinham, e foram em busca da fome maior.

(...)

Toda a minha luta fraudulente vinha de não querer assumir a promessa que se cumpre: eu não queria a realidade.


Pois ser real é assumir a própria pormessa: assumir a própria inocência é retomar o gosto do qual nunca se teve consciência: o gosto do vivo." - A Paixão segundo G.H, Clarice Lispector.


A fome de se viver desapereceu em muitos, e com ela também desapareceu a realidade. Essa troca pode parecer tentadora a princípio - "toda a minha luta fraudulente vinha de não querer assumir a promessa que se cumpre: eu não queria a realidade" - mas revela no fundo um grande medo da verdade, de se provar o gosto do vivo. Não estou sugerindo que vivemos em uma espécie de matrix, onde nossos sentidos se dissolvem em ilusões. Pelo contrário, acredito que eles são pontes para a realidade adivinhada; mas não podemos esquecer que eles são apenas pontes e não a margem que se quer alcançar. A pequena fome que valorizamos atualmente detém-nos sobre o rio - tudo em prol de estarmos com nossos sentidos satisfeitos - mas esquecemos que a realidade nos reserva todo um mundo do outro lado das águas. Novamente, não estou negando a realidade que temos, só estou defendendo que, assim como o leite não existe para nós bebermos, mas nós o bebemos; também o seu verdadeiro sabor existe, um gosto de vida que até agora não adivinhamos.

domingo, 2 de março de 2008

Motivos

Antoine Saint Exupery

Sei que martelo um pouco no assunto de "sentido da vida", mas acredito que é um tema que nunca deve ser abandonado até que fique claro para cada um. Diante disso, mais um belíssimo texto do francês Saint Exupéry pertencente ao seu livro "Terra dos Homens". Espero que sirva de orientação para esse mundo considerado como globalizado, mas que possui um Oriente e um Ocidente com claras divergências, além de uma África que foi esquecida por todos.

"Para compreender o homem e suas necessidades, para conhecê-lo no que ele tem de essencial não é preciso opor, umas às outras, as evidências de vossas verdades. Sim, vós tendes razão. A lógica demonstra tudo. Tem razão mesmo aquele que lança todoas as desgraças do mundo sobre os corcundas. Se declaramos guerra aos corcundas logo aprenderemos a nos exaltar. Vingaremos os crimes dos corcundas. E certamente os corcundas também comentem crimes.
É preciso, para tentar distinguir o essencial, esquecer por um momento as diviões que, uma vez admitidas, arrastam todo um Alcorão de verdades intocáveis, e o fanatismo conseqüente. Podem-se classificiar os homens em homens da direita e homens da esquerda, em corcundas e não corcundas, em fascistas e democratas, e essas distinções são inatacáveis. Mas a verdade, vós o sabeis, é o que simplifica o mundo, e não o que gera o caos. A verdade é a linguagem que exprime o universal. Newton não "descobriu" uma lei que estivesse durante muito tempo dissimulada, como a solução de uma charada. Newton efetuou uma operação criadora. Fundou uma linguagem de homem que pode exprimir a queda da maçã na terra e a ascençsão do sol. A verade não é o que se demonstra, é o que simplicifca.
De nada vale discutir ideologias. Se todas se demonstram, todas também se opõem, e tais discussões fazem desesperar da salvação do homem. Isso quando o homem, em toda parte, ao redor de nós expõe as mesmas necessidades.
Queremos ser libertados. O que dá uma exadada no chã quer saber o sentido dessa enxadada. E a enxadada do forçado (prisioneiro), que humilha o forçado, não é a mesma enxadada do lavrador, que exalta o lavrador. A prisão não está ali onde se trabalho com a enxada. Não há o horror material. A prisão está ali, onde o trabalho da enxada não tem sentido, não liga quem o faz à comunidade dos homens.
E nós queremos fugirda prisão."
itálico acrescentado

E quem não quer? Pena que muitos acabam se contentando com a situação quando olham o corcunda ao lado, preso em sua solitária. Todo o podre deste mundo é culpa dele, e eis que a nossa jaula se converte em um paraíso. Até quando?

Hermeto Pascoal


Segundo a maioria, Hermeto Pascoal é um dos grandes nomes da música brasileira. Mesmo assim, diria que ele vai muito além de fazer apenas música brasileira; ele faz antes de tudo uma música livre, livre de padrões como esse que poderiam aprisionar toda a criatividade que esse homem possui. Liberdade e espontaneidade são seus guias. Para dar uma idéia disso, pode-se citar os "instrumentos" que o barbudão gosta de usar. Tive a grande oportunidade de presenciar um de seus shows em 2005 e lá o que vi foi um patinho de borracha e uma piscina retrátil fazerem música! Atualmente não há previsões de shows, mas qualquer um que estiver diante da oportunidade de vê-lo tocar ao vivo, cometerá um grande pecado ao coração se deixar de fazê-lo.




Site Oficial:




Hermeto no Montreux Jazz Festival
(observação: não se assustem com o grito no início, hahaha):






Amor à Flor da Pele


O chinês Wong Kar Wai é sinônimo de romantismo. Mas não aquele romantismo "água com açúcar" da sessão da tarde; muito antes disso, ele aborda o tema de forma realista e, ao mesmo tempo, valorizando cada pequeno momento das intrigas amorosas.
O filme "Amor à Flor da Pele" é para mim uma das suas obras primas. Kar Wai consegue transmitir de forma perfeita a delicadeza nos relacionamentos em oposição à intensidade dos sentimentos. Acrescente a isso a trilha sonora enigmática e melancólica de Michael Galasso e uma fotografia brilhante; o resultado não poderia ser outro além de um filme que veio para se tornar referência.


Site Oficial:

http://www.wkw-inthemoodforlove.com/



Trailer:






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terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Lole y Manuel



É uma dupla de flamenco muito famosa. Apesar disso, é engraçado como todos que a escutam pela primeira vez acreditam que esta super voz sai de um menino prodígio, mas na realidade ela vem de uma moça com muito mais de 10 anos.
A presente música se chama "El río de mi Sevilla" e faz parte do cd "El origen de la leyenda". Ela lembra a cidade de Sevilla, na Espanha, onde Dolores Montoya Rodríguez nasceu. Abaixo, um pouco da história de ambos:


Lole y Manuel es una pareja flamenca formada en 1972 por Dolores Montoya Rodríguez (Sevilla, 1954) y Manuel Molina Jiménez (Ceuta, 1948). Esta pareja fue el primer exponente de música flamenca dirigido a un público no exclusivamente flamenco y fueron precursores del nuevo flamenco.
Su primer álbum se produjo en 1975 con un título muy acorde con la realidad de España en aquel entonces, el álbum se llamó Nuevo día. El duo, que reconocía tener ciertas influencias hippy realizaba experimentaciones con la música, mezclando incluso música de la cultura árabe y letras que hablaban de paz, amor y flores. A partir del 1993 los dos miembros empiezan a trabajar por separado, realizando eventualmente conciertos y nuevas grabaciones.
La música de Lole y Manuel tiene varias apariciones en el cine, destacando su participación en la película Flamenco de Carlos Saura así como Kill Bill (volumen 2) de Quentin Tarantino.
La hija de su extinto matrimonio es Alba Molina, también artista. Actualmente Lole realiza algunas grabaciones de música andalusí.


Lole y Manuel - El río de mi Sevilla:


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domingo, 17 de fevereiro de 2008

Brilho Oculto


Hoje ouvi uma estória muito bonita de um grande amigo meu, preciso compartilhá-la com todos!


Este amigo trabalha em uma editora cuja dona possui um filho com dificuldades (possui seus quarenta anos, mas uma idade mental de uma pessoa de 12). Apesar disso, ele também tem seu emprego na editora e seus admiradores: "Ele é um exemplo de vida para mim. Nunca o vi triste, está sempre a sorrir e a tratar todos com muita alegria. Na última vez em que estive lá estavam o diretor financeiro, o de RH e o admistrativo reunidos logo ao final da escada. De repente, o nosso protagonista invade a conferência com uma entrada teatral - desceu a escada aos saltos como se dois ou três degraus formassem um único apenas - e lá embaixo não se conteve e disse:"esse é o melhor lugar do mundo!!!" e seguiu com o seu sorriso pelo corredor".

Não tenho dúvidas de que muitos optariam por um aborto diante da notícia de que um filho com tais dificuldades está por vir. Mas por que matar tamanha alegria? É o exemplo cabal de que a felicidade não é algo para ser alcançado e sim vivido. Estamos sempre caçando-a com objetivos, como se esses fossem os responsáveis por nos satisfazer eternamente, e esquecemo-nos de como a vida é bela agora. É incrível como um corte de cabelo que não ficou bom ou então um apartamento longe da beira-mar impedem muitas pessoas de serem felizes. As pequenas coisas da vida estão sempre brilhando, basta sabermos notar isso. Há algo mais satisfatório do que olhar para o infito e sem motivo algum pensar: "como é bom viver"?


Para quem gostou da foto, ela é do fotógrafo brasileiro Renan Cepeda. Segue o site do mestre: http://www.renancepeda.com/

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

House of Sand and Fog


O tema é banal: uma mulher tentando reaver sua casa confiscada, mas os personagens são densos, todos com personalidades muito fortes. Agora, coloque todos eles em conflito; o resultado é um filme com conseqüências cada vez mais envolventes. Não é uma obra prima, mas recomendo.


Trailer:


video


site:
http://www.dreamworks.com/houseofsandandfog/


terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Aquilo que nos faz homens

Para aqueles que acordam com aquela super vontade de ir para a facul ou para o trabalho, aí vai um texto para fazê-los mudar de opinião.

"Há uma qualidade que não tem nome. Talvez seja "gravidade", mas a palavra não satisafaz. Porque essa qualidade pode existir junto à mais sorridente alegria. É a qualidade do carpinteiro que se planta diante de seu pedaço de madeira e o palpa e o mede, e, longe de tratá-lo às pressas, reúne toas as suas virtudes para trabalhá-lo."

e dessa qualidade surge o verdadeiro homem:

" Ser homem é precisamente ser responsável. É experimentar vergonha em face de uma miséria que não parece depender de si. É ter orgulho de um vitória dos companheiros. É sentir, colocando a sua pedra, que contribui para construir o mundo.

Querem confundir homens assim com os toureiros e os jogadores. Gaba-se o seu desprezo da morte. Mas eu dou bem pequena importância ao desprezo da morte. Se ele não tem suas raízes em uma responsabilidade aceita é apenas sinal de pobreza ou excesso de mocidade. Conheci um suicida moço. Não sei mais que desgoto amoroso o levou a colocar cuidadosamente um bala no coração. Não sei a que tentação literária cedeu calçando suas mãos de luvas brancas. Mas eu me lembro de ter sentido em face daquele triste espetáculo uma impressão que não era de nobreza, mas de miséria. Ali, atrás daquele rosto amável, sob aquele crânio de homem, não havia existido nada Apenas a imagem de alguma tola mocinha igual às outras.

Pensando nesse destino magro eu me recordo também de uma veradeira morte de home. A morte de um jardineiro, que me dizia: "Você sabe, às vezes, tabalhando, com a enxada na mão, eu suava. Minha perna doía com o reumatismo, e eu praguejava contra aquela escravidão. Pois olhe, hoje eu queria estar com a enxada na mão, trabalhando, trabalhando... Trabalhar com a enxada hoje me parece uma coisa bonita! A gente se sente tão bem, tão livre, quando está trabalhando a terra! E além disso, quem é que vai cuidar de minhas árvores, agora?" Ele deixava uma terra a cultivar. Deixava um planeta a cultivar. Estava ligado pelo amor a todas as terras e a todas as árvores da terra. Era ele o generoso, o prodígo, o Grande Senhor!"

É essa qualidade que não se pode nomear, é essa vontade de sugar de tudo toda a sua potência que nos diferencia como humanos (verdadeiros) e transforma o mundo.
Que elas possam cultivar toda a Terra (dessa vez com maiúscula)...

O trecho faz parte do livro "Terra dos homens", de Saint Exupéry.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Oldboy


Novamente, como este é o meu primeiro post, gostaria de deixar claro que pretendo utilizar este espaço apenas para recomendar alguns filmes. Não irei fazer uma análise profunda sobre a que corrente ele pertence ou sobre o brilhente papel que fulano interpretou, etc.
Espero que algo aqui possa lhes agradar

Dirigido pelo sul coreano Chan-wook Park, "Oldboy" é um marco para mim. O cinema tornou-se mais exigente depois dele. É um filme que leva os sentimentos de vingança e carinho ao extremo (paradoxal? eis toda a genealidade do filme). É a história de Oh-DeSu, que foi preso no dia do aniversário de sua filinha e mantido em cativeiro por 15 anos. Sem motivos aparentes, após esse longo período ele é libertado e vai em busca de explicações e de vingança. As cenas são fortes, mas brilhantes e te levam à loucura junto com o protagonista.

Abaixo, o trailer e o site oficial

site:

http://films.tartanfilmsusa.com/oldboy/

trailer:

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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

O segredo das estrelas

Agradeço às estrelas
por retornarem todas as noites para nos lembrar o quão pequenos nós
[somos.
Agradeço-as com aquele amor sincero e puro
que disputa espaço no mesmo coração confuso.
Confuso diante da verdade modestamente cintilada por elas
e da cruel distância que nos separa.
Será que a minha vontade ainda é tão pequena para alcançá-las?

O meu grito de socorro se desfaz incapaz no mesmo infinito que
[tentava combater.
Não tenho asas suficientemente grandes para alçar tamanho vôo
mas, de alguma forma o brilho dessses astros alcançou o meu olhar
e a verdade escorre pelo meu rosto
como o carinho casto que a mãe deposita sobre o recém nascido.

Sim, eu acabo de nascer novamente.
Nascer para uma vida inteira
manifestada no canto de um sorriso tímido:
é a vida que se revelou muito mais infinita do que o céu.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Magma


Como este é o primeiro post que faço, quero deixar claro que pretendo utilizar este espaço apenas para recomendar bandas que aprecio. Não vou me preocupar em fazer uma análise sobre cada uma,classificá-las em gêneros, etc; até porque não tenho o conhecimento necessário para fazê-lo.
Espero que possa sugerir algo que lhes agrade.

Para começar, gostaria de compartilhar com todos uma grande banda: Magma.
A música abaixo faz parte do CD "Attahk", o meu favorito deles, e se chama "maahnt (the wizards fight vs the devil)". O grupo é francês e são muito criativos - é interessante comentar que eles desenvolveram uma língua própria para as suas músicas!
Roubando um comentário de um fórum:
"O Magma é o criador do gênero zehul. Eles criaram uma língua própria, o cobaian e um conceito muito bem elaborado para criar suas músicas. Eis o conceito: a terra está em colapso e uns terráqueos fogem da Terra e vão para um planeta desabitado. Lá fundam o planeta cobaia, criam uma língua e inventam um estilo de música que funde o Jazz, música clássica, Rock e marchas militares. Tudo isso numa atmosfera opressiva e hipnótica."
O principal álbum deles, segundo a maioria, é "Mekanik Destruktiw Kommandoh", lançado em 1973.



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O álbum Attahk foi lançado em 1977. Para quem quiser mais informações, aí vai o site:


http://www.seventhrecords.com/indexuk.html

sábado, 2 de fevereiro de 2008

O que sei sobre a vida?

Este trecho faz parte do livro "O vermelho e o negro". Achei-o particularmente criativo e achei que seria uma pena deixar de compartilhá-lo, principalmente porque ele cutuca indiretamente o âmago de nosso conhecimento: que sei eu sobre a vida? Eis o trecho:

"Uma efêmera (mosca) nasce às nove horas da manhã nos longos dias de verão, para morrer às cinco horas da tarde; como haveria ela de compreender a palavra noite?"

O que nos diferencia dessa mosca, que nunca poderá compreender a palavra "noite"? Será que também somos capazes de compreender o que significa a vida em sua totalidade? Vida carrega um significado muito mais profundo do que um simples sinônimo para a palavra existência e, infelizmente, o homem moderno esqueceu-se disso. Ele, a partir de uma super valorização da ciência, acredita compreender completamente o mundo e a si mesmo, demonstrando por A mais B que o ser humano é um agregado de moléculas de DNA, etc. Somos moscas que acreditam saber o que é noite após um minucioso estudo da órbita terrestre e que descobriram que a partir das 20h a luz solar será interrompida em parte do mundo. Isso não é conhecer o que é a noite, da mesma forma que o que temos feito até então não é conhecer o que é a vida. Só a compreenderemos vivendo, tendo humildade para evitar um ceticismo prepotente e perguntando-nos sempre: quem sou, de onde eu vim e para onde vou. Quem sabe assim, mesmo estando escrito no roteiro que nascemos às nove horas da manhã e que morremos às cinco horas da tarde, tenhamos força o suficiente para alçarmos vôo até o leste e ver o sol se pôr.





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Limitações devem ser encaradas como obstáculos, nunca como barreiras. Se deixarmos o roteiro dizer quem somos nunca poderemos vislumbrar o céu noturno, descobrir o que a vida significa; o conhecimento de si próprio é a maior conquista que podemos ter.